terça-feira, 7 de junho de 2011


Texto de Pedro Branco


Cidade da solidão

Falamos de uma cidade cheia. De passos apressados e de mãos que se procuram nos desencontros onde as vozes se confundem. De silêncios em demasia. Nem o teu sussurro me acordou. Tinha-me deixado cair numa parede demasiadamente vazia. O meu corpo era uma folha à mercê do tempo. Os meus olhos rios feitos esgotos. Os meus braços apenas pó... Nesta cidade cheia não existem fotografias. Os passeios são baús a abarrotar de memórias e lágrimas. As estradas feitas labirintos assassinos e escombros do peito. Não havia janelas. Muito menos portas. Nesta cidade de dentro da solidão só existo eu...

Pedro Branco

segunda-feira, 6 de junho de 2011


"A fiadeira" de Van Gogh

.. faz de conta que vivia e que não estava morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos ...

Clarice Lispector

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar... Antoine de Saint-Exupéry

Esta é a minha canção para este fim de semana ... até já ... enquanto a gente for viva ...




Sete Letras - (enquanto a gente for viva)


Esta palavra Saudade
Sete letras de ternura
Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura
Esta palavra saudade
A mais bela e a mais pura
sete letras de verdade
E outras tantas, de loucura
Sete pedras, sete cardos
Sete facas e punhais
Sete beijos que são dados
Sete pecados mortais
Esta palavra saudade
Dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta,
fica na cama a chorar
Esta palavra saudade
Sabe a sumo de limão
Tem um travo de amargura,
Que nasceu no coração
Ai palavra amarga e doce
estrangulada na garganta
Palavra com se fosse
o silêncio, que se canta
Meu cavalo imenso e louco
a galopar na distância
Entre o muito e entre o pouco,
que me afasta da infância
Esta palavra saudade
como um filho que nascesse
Por termos sofrido tanto
Por termos sofrido
É que a saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,
Enquanto a gente for viva
Esta palavra saudade
sabe ao gosto das amoras

Cada vez que tu não vens,
cada vez que tu demoras

Ai palavra amarga e doce,
debruçada na idade

Palavra como se fossemos
resto de mocidade

Marcada por sete letras
a ferro e a fogo no tempo

Ai, palavra dos poetas
que a disparam contra o vento

Esta palavra saudade
dói no corpo devagar

Quando a gente se levanta
fica na cama a chorar

Por termos sofrido tanto
É que a saudade está viva

São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto,

Enquanto a gente for viva

J. C. Ary dos Santos

quarta-feira, 1 de junho de 2011


A criança é o amor feito visível.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Esta é a minha música para hoje ...




Saber o que fazer,

Com isto a acontecer,

Num caso como o meu.

Ter o meu amor,

Para dar e pra vender,

Mas sei que vou ficar,

Por ter o que eu não tenho,

Eu sei que vou ficar.

É de pedir aos céus,

A mim, a ti e a Deus,

Que eu quero ser feliz,

É de pedir aos céus.

Porque este amor é meu,

E cedo, vou saber

Que triste é viver,

Que sina, ai, que amor,

Já nem vou mais chorar,

Gritar, ligar, voltar,

A máquina parou,

Deixou de tocar.

Sentir e não mentir,

Amar e querer ficar,

Que pena é ver-te assim,

Já sem saberes de ti.

Rasguei o teu perdão,

Quis ser o que já fui,

Eu não vou mais fugir,

A viagem começou,

Porque este amor é meu

E cedo vou saber,

Que triste é viver,

Que sina, ai, que amor.

Já nem vou mais chorar,

Gritar, ligar, voltar,

A máquina parou.

Deixou de tocar,

É de pedir aos céus,

A mim, a ti e a Deus,

Que eu quero é ser feliz,

É de pedir aos céus.

Porque este amor é teu,

E eu já só vou amar,

Que bom não acabou,

A máquina acordou.

quarta-feira, 25 de maio de 2011


Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.

Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel. E sabe-se que são velhos não pelo aspecto mas porque quando contam que arranjaram uma secretária boa se referem a um móvel. O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não lêem revistas de golfe nos domingos de chuva. Estou a brincar. Não conheço nenhum economista, aliás. Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida? ...

António Lobo Antunes

domingo, 22 de maio de 2011


Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Porque o amor em todas as suas formas é a coisa mais importante das nossas vidas .

Ofereço a todos os que amo e são tantos, tantos, tantos ...

terça-feira, 17 de maio de 2011


Vazio

A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta espia-me pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, a minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados.
Eu espio a noite pela janela
Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase.
Mas os gatos embaixo acordam-me gritando luxúrias
E eu penso que amanhã...
Mas a gata vê na rua um gato preto e grande
E foge do gato cinzento.
Eu espio a noite maravilhosa
Estranha como um olhar de carne.
Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto
Perco-me por momentos em antigas aventuras
E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais
Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher
Nem aos gritos luxuriosos dos gatos amando-se na rua.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Procura-se ... urgentérrimo ...

Será que existe um Barnabé ?!? se existe chegue-se à frente que se faz tarde ...



Vieram profetas
Vieram Doutores
santos milagreiros, poetas, cantores
cada qual com um discurso diferente
p´ra curar a vida da gente
e a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente arribou
Toda a gente arribou

Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?

Vieram peritos
em habilidades
dizer que a fortuna cresce nas cidades
e que só ganha quem concorrer
e quem vai ser, quem vai ser
que vai ganhar, vai vencer?
e a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente ganhou
Toda a gente ganhou

Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?

Vieram comerciantes
vender sabonetes
danças regionais, televisões, rabanetes
em suaves prestações mensais
e quem dá mais, quem dá mais?
e quem dá mais, quem dá mais?
e a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
quem tinha ouvidos ouviu
quem tinha pernas dançou

Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?



Infelizmente há canções sempre actuais ...