Para acordar consciências neste nosso tempo de cada vez maior desumanidade ...
Óleo de Paula Rêgo
Procura-se um amigo
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta
ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber
ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do
canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por
alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e
respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se
sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível
que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são
enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve
ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser,
deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu
principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e
compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as
que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos
gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas
simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo
e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da
realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos
molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no
capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque
a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se
parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias
perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de
amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinicius de Moraes