quinta-feira, 25 de março de 2010


Homem virtual

Comprou um alfinete para a gravata
oferecida pela mãe no dia do enterro

acordou ao lado de uma almofada
lançou os olhos nos dígitos intermitentes
do medidor electrónico do tempo
vestiu-se à pressa para o atraso remediar
com duas tostas e um copo de leite magro
restou-lhe tempo para esquecer a escova
de dentes ao lado do dentífrico sabão azul
indicado para lábios queimados
pelo excesso de químicos
pegou na pasta preta para papéis brancos
de assassinar com assinaturas e partiu

no corredor que dava acesso ao elevador
cruzou-se com sonâmbulos
pintando na cara os gemidos da noite passada
a um "bom dia" respondeu sempre igualmente
dois passos hesitantes para a chuva que teimava cair
e escorregou na lama que teimava tropeçar
nas solas dos sapatos que o calçavam
regressou temporário a casa
com nódoas na camisa engomada de fim de semana
mudou de corpo e seguiu viagem

atropelou um camião que era transporte de ferro
ferrou os dentes na língua
aguardou paciente na paragem cardíaca
o autocarro que por certo avariara
sem aviso prévio no gravador de chamadas
ou na tabuada dos horários
que ficam sempre por cumprir
chamou um taxi para o desemprego
e pagou uma mão cheia de pressas

uma canção de embalar insónias
e a loucura de viver sem mistério
foi tudo o que almejou do patronato

puxou da agenda e marco do correio
na cabina telefónica consulta para dois
para ele e para o que em si gostaria de ser
marcou o número da análise

esperou por si à porta do inferno
mandou em jeito de ordem o diabo à merda
«deus é um carteiro atrasado
sem correspondência que me anime», gritou
mas a Ele agradava um soco
de deixar inchaço no olho

recentemente a vida é-lhe feita de um cigarro
antes da sessão de cinema
um café depois do sono
um vodka antes da cama vazia

não anda mal mas podia andar melhor


Henrique Manuel Bento Fialho, em " Antologia do Esquecimento"

quarta-feira, 24 de março de 2010

Doce pimenta ...

Hoje resolvi oferecer-vos a grande Elis, a Pimentinha (de quem todos sabem como sou fã) aqui muito bem acompanhada pela Rita Lee, provando-nos como a pimenta também é doce ...





Doce Pimenta
Composição: Rita Lee/Roberto de Carvalho

Cada um vive como pode
E eu não nasci pra sofrer
Cara feia pra mim é fome
E eu não faço manha pra comer
A vida é como uma escola
E a morte é o vestibular
No inferno eu entro sem cola
Mas o céu eu vou ter que descolar
Mas quando alguém precisa de um carinho meu
Não há nada que me prenda
Mas se eu sentir que um bicho me mordeu
Sou mais ardida que pimenta!
No fundo eu sou optimista
Mas eu sempre penso o pior
Me cansa essa vida de artista
Mas cada vez o prazer é maior

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ofereço a todos os semideuses ...


Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

sexta-feira, 19 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Insólito... ou talvez não ...

A quem gosta de jazz ofereço este momento a que tive o privilégio de assistir ao vivo. O local é familiar para muitos de nós. Afinal, como podem testemunhar, lá não se canta só em Português. Deixo-vos em muito boa companhia e peço desculpa pela qualidade do som.

quarta-feira, 17 de março de 2010


"Eu sou forte" e digo estas palavras gritando-as bem alto, numa tentativa desesperada de me convencer e acreditar, num esforço sobre humano para que não me abandonem as forças.

Nós os dois juntos vamos conseguir, sussurro-te eu ao ouvido com a esperança de te dar alento.

Mas, como tu dizes, é tão difícil saber como dar a volta aos deuses. Parem deuses por favor, não basta já ? Bem podiam dar-nos um sinal para sabermos por onde seguir nesta encruzilhada de caminhos e veredas onde nos colocaram. Aqui não podemos ficar, é urgente, é imperioso prosseguir, só nos falta descobrir qual o rumo, qual a estrada a tomar, coisa pouca meu amor, coisa pouca ...


terça-feira, 16 de março de 2010

Hoje ofereço-vos estas fotos (embora já tenham algum tempo) mas a verdade é que preciso de rir e gargalhar e acima de tudo adoro ver-vos rir e gargalhar. Espero que elas tenham sobre vocês o mesmo efeito que têm sobre mim (não consigo olhar para elas sem pelo menos sorrir).

A nossa sorte é que tinhamos ido à "casinha" instantes antes ...




Reparem bem na técnica das "craques"


P.S. Um beijo grande para ti Patrícia e para o nosso Digo, vais ver que tudo vai correr bem. Espero ter conseguido pelo menos fazer-te sorrir.

domingo, 14 de março de 2010

Parabéns querido blog.

Pois é hoje o meu blog faz dois aninhos. Está crescidinho o meu blog. Estive para vos oferecer uma história, porque afinal de contas é aquilo que me dá mais prazer escrever. Pensei duas vezes, lembrei-me de um conselho que me deram há algum tempo, e resolvi não a escrever, pelo menos hoje. Encontrei, com a ajuda de um amigo, este video (mais uma vez obrigada Mika) e por me parecer que nele existem todos os sentimentos, todos os estados de alma que aqui partilhei com vocês durante este tempo resolvi oferecer-vos. Identifico-me particularmente com a cena em que Amelie caminha com passos firmes e seguros, e de cabeça erguida. Agradeço a todos os que têm por aqui passado.

sábado, 13 de março de 2010

Vamos fazer o que ainda não foi feito - take 2

Hoje deixo-vos com este video e desafio-os a terem a humildade suficiente para nunca se julgarem superiores. Nenhum de nós é melhor que o outro, e mesmo que o fossemos deixariamos de o ser ao pensarmos que o somos. A superioridade de cada um de nós é medida pela capacidade de nos darmos. Deixem de se preocupar apenas com os vossos umbigos, acreditem que serão muito mais felizes se em vez disso oferecerem carinho e amor aos outros. Evitemos que algum de nós precise algum dia de ouvir "uma voz amiga" e se por acaso não o conseguirmos tentemos pelo menos estar presentes quando for imprescindivel para esse alguém ouvir essa voz. Acima de tudo lembremo-nos que a nossa liberdade termina onde começa a do outro e que não assiste a nenhum de nós o direito de excluir . A nossa vida pode acabar já neste preciso segundo tentem não deixar nada por fazer, aproveitemos cada momento de vida que nos resta para nos tornarmos melhores seres humanos.



Agradeço ao Mika a partilha deste video

sexta-feira, 12 de março de 2010

Gosto particularmente do desafio.

Bora lá malta, sacudamos a acomodação e o tédio: VAMOS FAZER O QUE AINDA NÃO FOI FEITO

Porque amanhã é sempre tarde demais ...



Fazer o Que Ainda Não Foi Feito
Pedro Abrunhosa

Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram
Quando por dentro eu sei que choram
Sabes de mim
Eu sou aquele que se esconde
Sabe de ti, sem saber onde
Vamos fazer o que ainda não foi feito

Trago-te em mim
Mesmo que chova no verão
Queres dizer sim, mas dizes não
Vamos fazer o que ainda não foi feito

E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

E eu sei que dói
Sei como foi andares tão só por essa rua
As vozes que te chamam e tu na tua
Esse teu corpo é o teu porto, é o teu jeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito

Sabes quem sou, para onde vou
A vida é curva, não uma linha
As portas que se fecham e eu na minha
A tua sombra é o lugar onde me deito
Vamos fazer o que ainda não foi feito

E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

Tens uma estrada
Tenho uma mão cheia de nada
Somos um todo imperfeito
Tu és inteira e eu desfeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito

E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais



BOM FIM DE SEMANA !!!