quarta-feira, 8 de abril de 2009


Olha, apetece-me ...

Pode ser impressão minha, mas sinto que “apetecer” é, nos nossos dias, um sentimento desvalorizado. Há outros de muito mais importância como “concretizar”, “realizar”,“investir”. “Apetecer” é um verbo demasiado leviano nestes tempos em que tudo tem de ser devidamente justificado, em que cada decisão deve ser fundamentada por uma data de estudos e previsões. Apetece-me uma coisa qualquer e vem logo um especialista com as suas opiniões sustentadas. Ou um estudo dizer que essa coisa não é boa. Que há outra melhor. Que, veja lá bem, pense duas, três, quatro vezes. O que acontece é que os estudos são mais que as mães e, tal como as mães ( e contra mim falo), às vezes podem ser além de contraditórios e erróneos também muito chatos ...

É perfeitamente legítimo gostar de alguém porque apetece gostar de alguém. Sim, há quem utilize a palavra para justificar a violência, mas também está associada à criatividade. Quero acreditar que Beethoven compôs todas as suas sinfonias porque lhe apeteceu, e que Fernando Pessoa escreveu todos os seus poemas, porque lhe deu na real gana. Que Deus, se existir (se calhar não lhe apetece existir, está no seu direito), criou o mundo e o homem porque lhe apeteceu. Porque lhe deu na telha. E nada nem ninguém, nenhum estudo e nenhum especialista, têm alguma coisa a ver com isso.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A importância de pensar positivo ...

Uma mulher foi encontrada viva, 18 horas após o sismo de ontem em Itália. Depois de os seus salvadores retirarem todos os escombros que a imobilizavam foram estas as palavras que disse entre lágrimas "Io penso positivo perche' son vivo".



É preciso acreditar,
É preciso acreditar
que a canção de quem trabalha
é um bem para se guardar
E não há nada que valha
a vontade de cantar
a qualquer hora cantar
É preciso acreditar,
É preciso acreditar
que uma vela ao longe solta
é um bem para se guardar
que se um barco parte ou volta
passará no alto mar
E é livre o alto mar
É preciso acreditar,
É preciso acreditar
Que esta chuva que nos molha
é um bem para se guardar
que há sempre terra que colha
um ribeiro a despertar
para um pão por despertar.

Luís Goes

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ao ler este post fiquei a pensar em todas as pessoas de quem gosto. Com interesses tão diversificados, com maneiras de viver a vida tão diferentes. No entanto todas humanamente interessantes, todas com tanto para me ensinar ...

Estranho quem vive barricado na sua selva. E se recusa a visitar, nem que seja por um segundinho, a selva alheia. Fico varado - eu que gosto de mixar universos e personagens e de circular em territórios contrastantes - com os cidadãos que só se sentem bem ou na tascarola ou no grémio literário. Aqueles que se recusam a passear diletantemente pelas diversas esquinas da vidinha, das mais limpas às mais abodegadas, e que preferem ficar estacionados, como se costuma dizer, em lugar seguro. Sempre o mesmo, sempre o mesmo, seja este elitista ou achungalhado.

Os que não passam a fronteira das freguesias do seu preconceitozinho para visitar outros lugarejos, ambientes e perfumes. Os que se recusam a falar com os Fanãs porque só se dirigem a pessoas de dois apelidos. Ou o contrário: gente que se recusa a falar com quem usa pulloveres em bico e tem uma maneira afectada de falar porque isso era ceder ao mundo "deles", do "guito" e da "tradição".

Peço desculpa, como o outro, por estar a sublinhar o óbvio : isto, seja o que isto for, vale a pena, parece-me (a mim e à dona Lurdes), pelas possibilidades. Por, num dia, podermos estar a beber um bela de uma imperialeca num tasco irrespirável e noutro estarmos a arriscar uma bem recomendada vinhaça numa esplanada com vista sobre a cidade. Por podermos ir à cinemateca e ao mercado do DVD de Campolide. Por podermos ter um amigo rasta, que nos convoca para épicas festarolas junto ao Martim Moniz, e outro que nos leva a passear pelos jardins aristocráticos da sua casa de familia, cheios de histórias e memórias.

Sim, percebo muito mal as pessoas que ou só gostam da pastelaria ou só gostam da casa de chá. Os que só frequentam a pastelaria e são incapazes de passar por uma casa de chá. Os que se recusam a descer da casa de chá "Tia Constança" para pedir uma bica ao balcão do café do Zé Nando. Sim, bem vistas as coisas, percebo mal o mundo quase todo.

Publicado por Nuno Santos em Sinusite Crónica

domingo, 5 de abril de 2009

Ainda sobre amor ...

Ligou-me hoje. Não falamos amiude agora, mas quando falamos, falamos mesmo. Dá-me um prazer imenso ouvi-la, aprendo com ela em cada palavra, em cada frase. Sempre foi assim. Esquecemo-nos das horas quando falamos, falamos de tudo, e sobre tudo. Desliguei e fiquei a pensar no que me disse. Falou-me da sua determinação em manter na lembrança os gestos e os rituais que faziam parte da sua vida antes do meu tio morrer. Falámos de inúmeras coisas, de paixão, de amor, de companheirismo, de não se arrepender de nada do que fez na vida, na importância que podem ter as escolhas menos correctas se com elas tivermos a capacidade de aprender. Acabámos a falar dos netos. Falou-me de tudo com palavras que soam a poemas, como sempre faz. O neto mais pequenito tem pouco mais de 2 anos, contou-me as suas façanhas e acabou com esta frase "nós a brincar até lhe chamamos o solidário da família".

Lembrei-me da sofreguidão com que absorvia as suas palavras quando era criança. Lembrei-me como ela foi e é importante para mim. É natural que eu já fosse solidária, mas ela ensinou-me a ser mais ainda. Ela ensinou-me a olhar o mundo com os seus olhos de poetisa, a amar os outros com a força com que hoje sou capaz de amar. Foi com ela que aprendi que haviam pessoas que lutavam por ideais, e pessoas que eram presas pela determinação que punham nessa luta. Doí-me o afastamento físico que a vida nos impôs. Sei que ela sabe como gosto dela, mas tinha necessidade de lhe prestar esta homenagem. Obrigada tia Isolina, a tua ajuda foi determinante na minha escolha em ser o que sou. E como estas palavras devem ser ditas sempre que nos apetecer, faço questão de as deixar hoje aqui : gosto muito de ti !!!


Estas são as três pessoas mais importantes da minha vida. As que me dão forças quando as forças me faltam, aquelas que me fazem sentir que vale a pena viver quando não encontro sentido na vida. Os que amo mais que a mim própria. Aqueles de quem sinto a falta quando não estou com eles. Os unicos que me apoiam em tudo o que faço, aqueles que preciso para ser feliz. Beijos aos três.

sábado, 4 de abril de 2009

Hoje apetece-me ouvir palavras sábias, e quem melhor que os alentejanos nos pode dar conselhos sobre como evitar o stress ?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O prometido é devido !!!


É óbvio que é necessária a criação de um Clube de Fans do Rogério Charraz devidamente regulamentado.

É óbvio devido ás suas qualidades como cantor, músico, compositor e letrista. É óbvio devido ás suas qualidades humanas. É óbvio porque a sua carreira artística já assim o exige. Em suma é óbvio porque o rapaz merece.

Assim, proponho os seguintes estatutos para o Clube de Fans acima referido:

A prossecução do objecto estatutário do Clube será conseguida através de:

a) Divulgar aos membros do Clube e a toda a população, os trabalhos onde participa o Rogério Charraz.

b) Facilitar aos membros do Clube, e a outros possíveis interessados, a recolha de informação e materiais de divulgação.

c) Participar activamente na preparação de espectáculos e na recepção do publico.

Artigo 2º

Para ser membro do Clube é necessário preencher e assinar uma proposta de adesão, que será sujeita à aprovação pela Direcção do Clube. Esta proposta conterá os dados pessoais e só será aprovada caso esteja totalmente preenchida, legível e seja acompanhada de um meio de pagamento correspondente à jóia de inscrição e à quotização relativa ao ano da inscrição, cujos valores constarão na proposta.

Artigo 3º

São direitos e deveres dos membros do Clube:

a) Participar na gestão do Clube, através da participação nos orgãos sociais.

b) Livre acesso às actividades desenvolvidas pelo Clube.

c) Receber uma cópia dos Estatutos e da regulamentação interna em vigor.

d) Receber, no prazo máximo de 3 meses após a recepção da proposta de adesão pelo Clube, um cartão identificativo do seu estatuto de membro do Clube.

e) Pagar, quando solicitado, o valor da quotização.

f) Informar o Clube da sua vontade em deixar de ser membro, bem como ser informado pelo Clube, através de carta registada com aviso de recepção da sua exclusão de membro, explicando as razões de tal procedimento.

Artigo 4º

Existem 4 categorias de membros no Clube:

a) MEMBRO FUNDADOR – Aquele que participou activamente no inicio do Clube e que manifestou vontade de ser membro fundador na primeira assembleia geral.

b) MEMBRO JOVEM – Indivíduo que solicitou a sua adesão ao clube e que devido a ser menor de 20 anos pode usufruir de condições especiais de quotização e de descontos.

c) MEMBRO ADULTO – Indivíduo ou colectividade que solicitam a sua adesão ao Clube.

d) MEMBRO HONORÁRIO – Indivíduo ou colectividade cuja adesão ao Clube é proposta em Assembleia Geral e com a aceitação posterior, por escrito, do indivíduo ou colectividade em causa. Ficam isentos de jóia de inscrição e do pagamento de quotas.

Artigo 5º

As quotas e a jóia de inscrição são fixadas em Assembleia Geral, por proposta baseada em orçamento para o ano a que correspondem. O valor das quotas e da jóia de inscrição só pode ser alterado no ano anterior em que vigorará essa nova quotização. As quotas destinam-se a custear os gastos gerais do Clube, nomeadamente as despesas de comunicação com os membros e com entidades externas, a aquisição de materiais e equipamentos variados e o pagamento de serviços relacionados com a divulgação e legalização do Clube. A quota é anual, sendo paga em prestação única . O pagamento da quota pode ser feito através de várias formas: directamente, via correspondência, à cobrança ou através de transferência bancária. O seu não pagamento após solicitação expressa da Direcção do Clube implica a exclusão.

Artigo 6º

A tomada de posse dos orgãos sociais eleitos é realizada logo após final da Assembleia geral, sendo devidamente registada no livro de actas da Assembleia Geral do Clube.

Artigo 7º

A Direcção do Clube deve reunir com a periodicidade mínima de 3 meses, de modo a garantir uma gestão eficaz, ficando ao critério dos membros eleitos fixar uma calendarizarão das reuniões, que tem se ser do conhecimento de todos os membros. As reuniões da Direcção do Clube são abertas à participação de todos os membros mas apenas os 3 membros eleitos têm poder deliberativo. De todas as reuniões da Direcção serão registadas as actas no correspondente livro, autenticadas com a assinatura dos elementos da Direcção do Clube presentes.

Artigo 8º

A abertura de delegações do Clube de Fãs está dependente da aprovação em Assembleia geral, não se prevendo qualquer tipo de restrição geográfica para a criação de uma delegação. Para se considerar uma delegação, deverá ser apresentada à Assembleia Geral uma proposta onde devem constar:

- Identificação dos membros do Clube que se propõem abrir uma delegação (no mínimo 5 indivíduos e/ou colectividade).

- Denominação da delegação (denominação da localidade onde ficará sediada a delegação).

- Descrição das actividades que vão desenvolver.

Uma delegação pode ser encerrada pela Direcção do Clube, caso não esteja a cumprir com o estabelecido na Assembleia geral e caso o seu funcionamento esteja a prejudicar o funcionamento do Clube. As delegações não têm independência financeira mas podem organizar-se da maneira que os seus membros entendam por melhor. Para pertencer a uma delegação os membros do Clube tem que o comunicar por escrito, numa declaração escrita.

Esta é a minha proposta, espero propostas de todos os que como eu pretendem, acima de tudo, a merecida divulgação do verdadeiro Artista.

Ninguém escolhe ser cúmplice, a cumplicidade conquista-se.
Ser cúmplice é não ter medo de nos entregar, é podermos tirar as máscaras, sermos nós mesmos. E quando podemos ser nós mesmos, somos livres.

Gosto de cumplicidades.
Duas vozes, uma portuguesa, uma brasileira.
Novamente a magia de um dueto.



A Ilha Do Meu Fado
Composição: João Mendonça / Zeca Medeiros

Esta ilha que há em mim
E que em ilha me transforma
Perdida num mar sem fim
Perdida dentro de mim
Tem da minha ilha a forma

Esta lava incandescente
Derramada no meu peito
Faz de mim um ser diferente
Tenho do mar a semente
Da saudade tenho o jeito

Trago no corpo a mordaça
Das brumas e nevoeiros
Há uma nuvem que ameaça
Desfazer-se em aguaceiros
Nestes meus olhos de garça

Neste beco sem saída
Onde o meu coração mora
Ouço sons da despedida
Vejo sinais de partida
Mas teimo em não ir embora

BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS !!!

quinta-feira, 2 de abril de 2009


Até compreendo. Não concordo, mas compreendo. Foram educados assim. Cresceram assim. Ouviram desde pequenos as mesmas frases. Aprenderam porque possivelmente muitos lhes disseram. Interiorizaram bem dentro de si: a coisa mais importante que existe na nossa vida é o dinheiro.

É este o seu lema de vida e por ele lutam. Nada mais lhes interessa. Amor, respeito, consideração, gratidão, são palavras que não existem no seu vocabulário, são sentimentos que não têm capacidade de sentir. Nunca são inteiramente felizes. Ambicionam sempre mais.

Podia dar-vos muitos exemplos, é só olharmos para o lado, para trás, para a frente, dou-vos o daquele casal de ex namorados a quem saiu o Euro Milhões. Um quer dividir o dinheiro, a outra quer recebê-lo todo. Não se contenta com metade, compreende-se, foi assim que foi educada, foi isto que lhe ensinaram. Ficará feliz se conseguir vencer esta luta, porque dinheiro para ela não se divide, mesmo que seja muito, mesmo que tenha sido ganho sem grande esforço, mesmo que para o ganhar apenas tenha sido preciso um pouco de sorte.

Ontem à noite, ao ver as noticias, o meu coração sorriu. Tanta gente a manifestar-se, a lutar com convicção, a acreditar na mudança de atitude. Tantos a lutarem por uma sociedade diferente, sem capitalismo, sem guerra, tantos a preocuparem-se com a solução dos problemas ambientais que afectam este nosso planeta. Ontem os ideais do Woodstock, estiveram lá, em Londres, na cimeira dos G20. Muitos dos que lá estavam tinham menos de 40 anos, vimos as suas caras na TV. Há uma esperança. Para mim ainda há uma esperança de que este nosso mundo possa vir a ser um mundo melhor.

Há quem não pense como eu:

Vejam como são comoventes os bons sentimentos expressos
nesta twittada. Um cidadão europeu ser morto numa manifestação é mau porque faz (putativamente) jeito aos anarquistas. É bonito; e é bonito que esta seja a cabeça à frente de um dos dois diários de referência nacionais. Revelador.

Além de tudo, é sempre bom ver até que ponto os nossos líderes de opinião têm a cabeça enfiada na areia, quanto ao estado de espírito da população europeia. Continuem a convencer-se de que a maioria das pessoas está satisfeita com o rumo das coisas. Ou somos todos anarquistas?

Em Womenage a Trois (ver link aqui ao lado)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Hoje apanhei dois nomes do chão. Chamavam-se Roberto e Afonso e estavam espalhados pelo chão da sala.

Hoje, dizia, apanhei o Roberto e o Afonso do chão e guardei-os um pouco junto a mim. Antes de tudo o mais, de os levar para a varanda e lá os deixar naquele vaso, pego neles e abraço-os junto ao peito. Sento-me no sofá, olho os quadros, olho os livros e enterneço por eles. São dois nomes na minha vida toda: o Afonso com os seus óculos, a sua bonomia, o seu ar atento, sempre atento, a todas as coisas que por ele passam; e o Roberto com a sua madeixa de cabelo loiro tocando a testa, o seu corpo frágil, as suas mãos compridas e o ar distraído com que presenteava sempre os meus olhares. Ambos foram a minha vida. Ambos passaram por mim já junto a este peito onde, agora ternurenta, os abraço. Ambos, como muitos outros que já levei para a terra escura daquele vaso, ambos foram carne com a minha carne, sussurro com os meus sussurros, brincadeira com as nossas brincadeiras. Ambos foram já tanto parte de mim que me é difícil abraçá-los sem os sentir demasiado dentro. Mas é uma necessidade, uma despedida. Depois de os lançar ao chão da sala, levanto-lhes o corpo que cada nome tem e, num último adeus, dou-lhes o encontro com o meu peito. Porque é sempre preciso sentir o cheiro que estes nomes nos dão na memória antes de os deixar para sempre na terra tão escura e fria que aquele vaso, na varanda, à noite, ampara.

E estou em casa, com o casaco de malha ainda vestido porque o frio entra com a noite quando abrimos a porta que nos leva à varanda. Depois de ouvir mais um nome na varanda (ouço-os sempre na voz que é a deles, chamando-me; mas resisto e entro para a sala) deixo as portas já trancadas e entro em casa. Os meus pais devem estar a chegar e esta solidão será daqui a pouco acompanhada. A casa vazia encher-se-á deles e estes papéis espalhados no chão da sala não serão problema. Nunca são. Porque sou ainda pequena e eles, com os seus nomes de pais, acabam desculpando-me tudo. Porque sabem que mesmo uma criança como eu já precisa de ter um vaso dos nomes onde deixar as pessoas que vão passando pela nossa vida.

Jorge Reis Sá em "O vaso dos nomes"