sexta-feira, 8 de junho de 2012

Bom fim de semana !!!!



Mundo Deserto

Elis Regina

No mundo deserto de almas negras
Me visto de branco
Me curo da vida sofrida, sentida
Que deram pra mim
No mundo deserto de almas negras
Sorriso não nego
Mas vejo um sol cego
Querendo queimar o que resta de mim
Vivo no mundo deserto de almas negras
Vivo no mundo deserto de almas negras
Vivo no mundo deserto de almas negras
Na vontade de verdade
Eu quero ficar
E não acredito no dito maldito
Que o amor já morreu
Tenho fé que o meu país
Ainda vai dar amor pro mundo
Um amor tão profundo, tão grande
Que vai reviver quem morrer

terça-feira, 5 de junho de 2012

Para acordar consciências neste nosso tempo de cada vez maior desumanidade ...

Óleo de Paula Rêgo

Procura-se um amigo
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinicius de Moraes

segunda-feira, 4 de junho de 2012



Óleo de Paula Rêgo

Cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, in "Poemas"

terça-feira, 29 de maio de 2012

Nunca esteve tão bonita a minha casa, na realidade nunca pensei que a minha casa pudesse ter a beleza que tem neste momento. Duas molduras, duas fotografias do membro mais novo da família fizeram este milagre.

Olho para as fotos e vejo "inocência" e desejo que todos nós tenhamos a capacidade de a preservar ao longo da nossa vida.

Olho para as fotos e vejo "simplicidade", e sonho com um novo modelo de sociedade  que se baseie nela. Uma nova sociedade  despojada de preconceitos, em que todos sejamos livres, em que haja igualdade de oportunidades e direitos e baseada numa felicidade atingida não através  dos bens materiais mas através do respeito, da afectividade e do carinho.

Talvez tenha nascido com alguma malformação nos neurónios porque apesar de toda a informação que neles fui acumulando ao longo dos meus já longos cinquenta e quatro anos de vida continuo a acreditar que ainda é possível mudar mentalidades e construir um Mundo mais feliz e mais justo.

sábado, 26 de maio de 2012


A família é muito maior do que se imagina porque representa o passado, o presente e também o futuro.

E o valor 'família' só é possível se estiver associado ao valor 'amor' e ao conceito 'incondicional'.

sábado, 12 de maio de 2012

É minha lei, é minha questão, virar esse mundo, cravar esse chão.


Sonhar

Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Vou ali, antecipar a realização de um sonho antes que ele se torne impossível. Até já ...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A minha música para hoje dia 11 de Maio - Rui Veloso - Cavaleiro Andante



Porque tu és o meu cavaleiro andante
Que mora no meu livro de aventuras
Posso  chorar no teu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento me ralhe
E a chuva de maio me molhe
Sempre que o meu barco encalhe
E a vida passe e não me olhe

Porque tu és o meu o cavaleiro andante
Que o meu velho medo inventou
Posso ir chorar no teu peito
Pois sei sempre onde estás

Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco me persiga
E me chame nomes na rua

Posso ir chorar no teu peito
Longe de tudo o que é mau
Tu irás estar sempre ao meu lado
No teu cavalo de pau ...

OBRIGADA !!!!!!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Como os nossos pais ...



Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais.

domingo, 6 de maio de 2012

GAC - Ronda do Soldadinho

S

Letícia Thompson

Ser mãe dói.

Dói quando o filho nasce e ela  pergunta a si própria como o vai saber educar. Dói quando, tendo o futuro todo pela frente, ela se sente perdida, como se o mundo não tivesse continuação. Dói quando o filho chora de noite e ela não sabe bem como acalmá-lo.

Ser mãe dói quando o filho fica doente e ela quer trocar de lugar com ele e não pode.

Ser mãe dói quando o filho não quer ir à escola e ela precisa fazer um esforço sobrenatural para não chorar ao deixá-lo.  Mas dói também, quando ao deixá-lo  na escola, ele dá um sorriso e diz adeus. Dói sentir que ele se desprega, se solta,  se torna independente. Como dói!!!

Ser mãe dói quando o filho tem problemas na escola e ela precisa ouvir com naturalidade as queixas. Doem a adolescência e as questões existenciais.

Deve ser uma dor imensa ver um filho ir para a guerra. Deve doer imensamente ver um filho seguir caminhos diferentes dos que julgamos corretos. Mãe que vê o filho sofrer, sofre a dobrar.

Ser mãe é uma missão que dói a vida inteira.

Ser mãe é ter a dádiva do dar. Ela planta e sabe que não é para ela.

Ser mãe dói sim. Mas engrandece também. A medida da dor é também a medida da alegria de ver o filho feliz.

A maternidade é a corôa de toda a mulher. De espinhos... mas de flores também!

Benditas sejam todas as mães do mundo!!!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Porque a vida sem ternura não é lá grande coisa ...

Li-o quatro ou cinco vezes já há muitos anos, voltei a lê-lo agora porque um projeto em que me envolvi me desafiou a faze-lo: "O meu pé de laranja-lima" . Lembro-me que chorei todas as outras vezes que o li mas nunca tanto como agora. A comoção começou logo no primeiro capítulo e acompanhou-me até ao fim da leitura. Porquê ?!? Talvez porque a TERNURA se foi perdendo lentamente durante os anos, nesta nossa sociedade sempre em  transformação, certamente "... porque a vida sem TERNURA não é lá grande coisa ... "




“Enfeite-se com margaridas e ternura e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse nos seus olhos e beba licor de névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases subtis e palavras de galanteria.”

Carlos Drummond de Andrade