quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"Quatro caminhos" de Ana Lains

Quatro caminhos, é o novo disco de Ana Laíns, um disco que conta com o apoio da Antena 1, e que estará finalmente à venda nos pontos habituais no próximo dia 1 de Março.

Ana Laíns define o seu novo álbum "Quatro Caminhos" como "um reflexo da música tradicional e do fado". Editado pela Difference, inclui originais de Amélia Muge, Samuel Lopes, Ângelo Freire, e Diogo Clemente, que volta a ser o produtor, e poemas de Carlos Drummond de Andrade, Natália Correia e Ruben Dario.

Para quem não conhece ainda Ana Lains deixo-vos um "cheirinho" do anterior album.


"Quatro caminhos" parece-me um disco obrigatório para quem gosta de boa música portuguesa.

Parabéns Ana por mais este excelente trabalho.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Hoje apetece-me falar das palavras. De como podem ser belas, ou feias, doces ou cruéis, frágeis ou fortes. Do significado que têm para ti, tão diferente ou tão igual ao significado que podem ter para mim. Das imagens e dos sentimentos que carregam. Da mensagem que quer transmitir quem as diz ou escreve e da mensagem entendida por quem as ouve ou lê. Hoje apeteceu-me falar-vos da magia das palavras.

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


O Carnaval do Arlequim, de Joan Miró


Somos um país dado a festividades populares, algumas de origem pagã. Morreram já umas, mas renasceram outras, de cariz político, com sinos, guizos e pandeiretas sofisticados, ensurdecedores mesmo, que amplificam a demagogia e a mistificação da realidade e se tornaram caricatura de todos os traumas nacionais. Este carnaval acampou na política e nos meios de comunicação. Cada um toca com mais força que o outro, o som da mentira é a banalização do mal, ninguém se respeita, a bandalheira é medalha de notoriedade.

Ciclicamente, parece que foi sempre assim. Vai-se à Campanha alegre do Eça e lá está o século XIX transposto para os dias de hoje: «O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos».

Retirado integralmente daqui

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Óleo de Paula Rego

Alegria

De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!

Fernanda de Castro, in "D'Aquém e D'Além Alma"

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Bom Carnaval para todos !!!

"Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!"

Friedrich Nietzsche

Daniela Mercury – “Swing da cor” (1991)
Com Daniela Mercury, o axé deixou de ser música exclusiva do carnaval da Bahia e passou a dominar as rádios do país, ao lado do sertanejo e do pagode. Por outro lado, Hagamenon explica que “Daniela, ao lado de Margareth Menezes, sofisticou o axé, deu toques de MPB e criou até uma carreira internacional”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mais um projecto musical de grande qualidade !!!

Pois é ...


"A Cultura é uma necessidade básica. Sem Cultura não pode avançar uma Sociedade que se quer digna desse nome."

"Um País assenta fundamentalmente na cultura que o enforma. Ela é a sua alma."

Todos nós sabemos que é muito mais fácil "vingar" no Mundo da música em Portugal através do .... como direi ? "popularucho" ? Há no entanto quem continue a teimosamente não seguir pelo caminho mais fácil, quem heroicamente continue a insistir na música de qualidade, a lutar pela dignificação da cultura portuguesa.

Apresento-vos este novo projecto, de grande qualidade, de alguém que sempre apostou, e pelo que conheço dele sempre continuará a apostar, na nossa cultura .


A voz, falada e cantada, acompanhada pela guitarra e pelo piano. A poesia e a canção cruzam-se de várias formas, homenageando poetas e compositores da Lusofonia.

"Pode a palavra ecoar nos silêncios?
Ser o próprio silêncio ou mesmo dançar na rouquidão de uma voz que tem os movimentos de ...um corpo poeta ou até de mar?
Pode a palavra pintar-se a si própria e ser cristalina como uma lágrima de amor ou até uma fonte?
Podem os Homens inventar-se em novos perfumes de inquietação e saudade?
Palavras em canto. Palavras em cantadas que nos fecham os olhos e nos transportam até dentro de nós! Um espectáculo de poesia e música portuguesa. Para ficar a bater-nos no peito como um toque de coração. Para ficar a brilhar-nos nos olhos como o reflexo do nosso sol. Para ficar na memória para sempre…"

Texto de apresentação do espectáculo, da autoria de Pedro Branco

Quem estiver interessado: 96 726 82 83 ou rogeriocharraz@gmail.com

Informações adicionais aqui, aqui, e aqui .

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010



Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Porque também sou mãe sei o que sentes hoje. Porque sou tua amiga e te sei FELIZ, estou feliz também. Porque hoje é o teu dia e o dia de Gabriel, resolvi voltar a trazer aqui um video que fiz no dia 28 de Janeiro de 2009. Porque sendo filho de quem é só pode ser "boa onda" tenho a certeza que me apetecerá mais dias menos dia fazer um para o Gabriel (assim que tiver matéria prima para isso). Bem-vindo Gabriel. Beijos e até já.






P.S. Como tive de ir buscar o video ao post anterior, os comentários que lá estavam vieram atrás. Como é lógico mantive-os. São as minhas dificuldades técnicas .

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010



“Looking-out" de Paula Rego


Poema Cansado de Certos Momentos

Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010


Eu quero ser sempre aquilo
Com quem eu simpatizo
E eu torno-me sempre
Mais cedo ou mais tarde
Aquilo com quem eu simpatizo
E eu simpatizo com tudo
São simpáticos os homens superiores
Porque são superiores
E são simpáticos os homens inferiores
Porque são superiores também
Porque ser inferior é diferente de ser superior
E isso é uma superioridade
A certos momentos de visão
Eu simpatizo com alguns homens
Pelas suas qualidades de carácter
Com outros eu simpatizo
Pela falta dessas mesmas qualidades
E com outros ainda eu simpatizo por simpatizar com eles
Como eu sou rei
Absoluto na minha simpatia
Basta que ela exista
Para que tenha razão de ser.

Álvaro de Campos